O que Perplexity e Comet podem fazer por você?
Primeiras impressões de um navegador com agente de IA
Para vocês que acompanham nossa newsletter, a plataforma Perplexity já é conhecida, tanto por ser a primeira IA conversacional com acesso em tempo real a internet, reduzindo muito o problema da invenção-alucinação, como por ter implementado o conceito de “pesquisa profunda”, ou deep research.
Com isso, ela buscava ocupar o espaço da IA orientada para para estudo e pesquisa, projetada para ir além das funcionalidades tradicionais de outros assistentes e buscadores.
Contudo, a Perplexity recentemente deu um salto a dianteira no disputado campo da Inteligência Artificial Generativa com seu navegador web, o Comet. Qual seu diferencial?
A resposta está em duas camadas complementares: primeiro, na sofisticação da ferramenta de pesquisa em si; segundo, na integração desta IA diretamente no navegador. Vamos começar pelo Perplexity Pro, a base desta operação.
Acesso avançado à IA
A empresa adotou uma estratégia agressiva, disponibilizando sua melhor versão para estudantes e professores universitários, mediante comprovação de seus respectivos vínculos.
Nesta sua versão “turbinada”, o Perplexity permite pesquisas ilimitadas com acesso a múltiplos “modelos de ponta”, como GPT-5, Claude 4.6 Sonnet, Gemini 2.5 Pro e Deep Seek R1. Todos estes proporcionam respostas sofisticadas, adaptadas à complexidade das demandas acadêmicas. Não parecem em nada com aquelas IAs simplórias de seu celular ou com aquela “visão geral criada por IA” adotada pelos buscadores de Internet.
O modo Pro também permite um número ampliado de pesquisas profundas, analisando centenas de fontes online, gerando relatórios detalhados, passíveis de serem descarregados em arquivos editáveis. Esta capacidade de pesquisa é ampliada com a possibilidade do usuário carregar múltiplos formatos de arquivo (PDF, CSV, imagem, áudio, vídeo) para servir de base para a análise. Oferece, assim, uma solução centralizada para o estudo de materiais de pesquisa.
E diferentemente de outros chatbots de uso genérico, o Perplexity mostra as fontes utilizadas em suas pesquisas, o que em última instância, permite a validação das mesmas e o aprofundamento nos materiais originais.

Dessa forma, e como havíamos destacado anteriormente, o Perplexity atua como um híbrido entre buscador inteligente e assistente conversacional, sendo especialmente indicado para quem precisa de informações atualizadas, fundamentadas, rastreáveis para projetos acadêmicos, artigos científicos, análises de mercado ou relatórios técnicos.
Como discurso de venda, a empresa desenvolvedora ressalta a transparência e rigor. Estas características já colocariam a Perplexity em posição competitiva no mercado saturado de assistentes de IA. Afinal, pesquisa aprofundada com fontes rastreáveis atende a uma demanda específica de pesquisadores e estudantes. Mas o que mais poderia ser acrescentado à experiência?
Sobre espaços, descobertas e laboratórios
Nesta perspectiva de “prender” o usuário na plataforma para tudo o que se relacione com a busca de informação, a Perplexity também buscou algumas inovações. Os “Espaços”, ambientes dedicados que facilitam a organização de estudos, pesquisas e projetos sinalizam a intenção de “prender” o usuário na plataforma.
Cabe considerar que nos Espaços-padrão disponibilizados (chamados de “modelos”), muitos estão voltados a Educação e para a pesquisa. Por exemplo, há um Espaço para a organização e formatação de referências bibliográficas. De forma geral, eles são voltados para buscas temáticas em artigos, relatórios e bases de dados.

Além disso, os Espaços podem incluir uma abordagem de colaborativa, com o compartilhamento de carregamentos, de comentários e edições. Finalmente, o contexto de personalização permite que instruções específicas sejam incorporadas, de forma a adaptar a resposta da IA ao estilo de escrita, ao nível de complexidade ou ao foco em aspectos práticos versus teóricos.
Como exemplo de aplicação prática, um estudante pode criar Espaços diferentes para cada disciplina, carregando os materiais didáticos, pedindo explicações sobre temas nos quais encontra dificuldade e elaborando roteiros de estudo. Já um pesquisadores podem centralizar todo referencial necessário para a escrita de um artigo: fontes, dados estatísticos e notas próprias, facilitando a revisão de literatura com base em fontes confiáveis e atuais.
Enquanto os “Espaços” funcionam como ambientes de trabalho organizados (imagine pastas inteligentes que conversam com você), há outro recurso que complementa a experiência, mais relacionado com a navegação.
A ferramenta seguinte da plataforma um descobridor e organizador de conteúdos, permitindo que o usuário explore temas de interesse com profundidade, contextualização e flexibilidade.
Através do aprendizado de máquina, a IA entende as preferências do usuário, mantém memória uma contextual das interações anteriores e sugere temas correlatos, permitindo navegar por camadas sucessivas de informação.
Assim, este recurso pretende substituir o conceito tradicional de busca por informação em função de um assistente que guia o usuário em uma navegação ativa, contextual e aprofundada.
Finalmente, a opção “laboratório” permite a criação de apresentações, códigos, documentos.
O Comet entra em cena
Até aí tudo bem, poderia ser um “ChatGPT mais focado e com resultados em tempo real da Internet”. Porém, o lançamento do navegador Comet deu um passo, ou vários, adiante. Não se trata apenas de “mais uma ferramenta de busca inteligente”, mas de um agente autônomo integrado que acompanha cada movimento do usuário pela web.
A ideia é que o usuário não precise mais alternar entre uma janela no qual está aberto seu chatbot de preferência e o trabalho sendo realizado. Seu caráter “agêntico” foi pioneiro no cenário da IA Generativa. Mas o que isto significa?

Além de ser um navegador com funções “tradicionais” (navegação anônima, uso de perfis, favoritos, organização de abas), o Comet pode agir de forma autônoma, executando tarefas e sugerindo ações conforme as necessidades do usuário.
O conceito de “agente” pode soar técnico, mas seu significado é claro: o Comet não apenas responde comandos, ele age autonomamente. Basicamente, estamos diante de um navegador que tem IA incorporada.
A inovação central está em sua atuação proativa. O navegador compreende o conteúdo as abas abertas, resume, executa buscas relacionadas, organiza informações distribuídas entre diferentes plataformas. Como padrão, possibilita se conectar a aplicações como Gmail, Google Calendar, Notion e GitHub.
O aspecto agêntico permite ainda delegar tarefas complexas: análise de documentos extensos e extração de dados de PDFs. Mas talvez o “pulo do gato” seja sua capacidade de interagir como se fosse você. Pode responder mensagens de correio eletrônico, publicar em fóruns, preencher formulários. Nenhuma experiência online está isenta.
E é precisamente neste ponto que as implicações se tornam problemáticas.
Mas existe algum perigo de usar um agente?
Se você compreendeu o alcance das capacidades descritas acima e sentiu um certo desconforto, sua intuição está correta: autonomia, ética e controle estão em xeque.
A promessa de um agente substituto de sua ação contém uma contradição perigosa: ao mesmo tempo que oferece eficiência, ela corrói os fundamentos da presença, autenticidade e responsabilidade. Especialmente em contextos educacionais.
Vamos examinar cenários concretos onde essa tecnologia revela suas facetas mais problemáticas. Usei, testei, e aqui vão minhas impressões.
Avaliação delegada e orientação sintética
Momentos finais de uma disciplina oferecida na modalidade Educação a Distância. Com cerca de 45 estudantes matriculados e dados de participação dispersos em fóruns, entregas de atividades e visualizações de material, decidi testar se a IA poderia auxiliar no processo avaliativo. Conectado no Ambiente Virtual da Aprendizagem da universidade e com a página de perfil de uma estudante aberta, pedi:
“Analise o perfil desta aluna e faça uma avaliação qualitativa de sua participação > na disciplina. Considere: frequência de acesso, participação em fóruns, entregas de atividades e engajamento com o material didático. Produza um parecer descritivo.”
O resultado? Seguindo a linha geral dos LLMs/chatbots: interessante para uma primeira leitura, mas não decisivo. Pelo contrário, uma aluna que praticamente esteve ausente e abandonou a disciplina foi avaliada como participativa pela IA.
A tecnologia funcionou como “sintetizador de evidências superficiais”, não como avaliador pedagógico. Ela detecta padrões quantitativos (acessos, postagens, entregas) mas falhou em avaliar qualidade, intencionalidade, autenticidade ou desenvolvimento, justamente os aspectos centrais da avaliação formativa.
Não dá para confiar. Não é possível delegar, ainda.
Agora vejam: se eu pedi para a IA avaliar uma atividade pedagógica, os alunos também podem solicitar que este mesmo agente responda questionários, poste em fóruns, acesse materiais didáticos, dando a sensação de estar presente online. E pode pedir que faça isso de uma forma não muito previsível e padronizada, ocultando seu caráter agêntico.
Dito de outra forma, se a IA pode avaliar participação de forma automatizada, ela também pode simular participação.
Particularmente, a plataforma Canvas LMS (não confundir com aquela dedicada ao design gráfico, o Canva) viu-se no centro da polêmica, ao integrar Inteligência Artificial Generativa, tanto para alunos como professores.
As possibilidades são várias, incluindo o Whatsapp Web. Estando conectado pelo navegador, o Comet pode tomar assumir o comando. Particularmente, testei num contexto de orientação acadêmica. Pedi que o agente localizasse o contato entre as conversas e respondesse como se fosse eu. O resultado? Ao mesmo tempo interessante e um pouco assustador.
Vou contar mais sobre este experimento e sobre os resultados num futura edição da newsletter dedicada ao conceito de “gêmeo digital”. E de todos os riscos associados, pois o próprio conceito de agente traz em si a arriscada ideia do “vai você”.
Sintetizando, basicamente tudo o que você faz na Internet, a Inteligência Artificial pode fazer por você através de um agente. Na atualidade a maioria dos chatbots contam com mais ou menos autonomia neste sentido, necessitando de autorização para acessar seus aplicativos e plataformas.
Mas será que os ganhos de produtividade compensam os riscos à privacidade, autenticidade e autonomia pedagógica?
Recapitulando
O Perplexity Pro permite acesso a IA avançada, mas com custo (seus dados).
O Comet oferece autonomia agêntica, mas corrói a autenticidade.
Ambos podem tanto potencializar, quanto substituir a aprendizagem.
A linha entre assistência e mau uso é perigosamente tênue.
Além dos breves experimentos que compartilhei, você tem experiência em utilizar o Comet, ou similares, no contexto educacional? Compartilha conosco.
Em suma, a combinação Perplexity/Comet transcende o conceito de navegador ao atuar como agente inteligente autônomo. Em que medida e como irá impactar a atividade docente e as propostas de atividade pedagógica, veremos. Mas acredito que o impacto será muito significativo.
Embora a prometida “era dos agentes autônomos” não tenha se concretizado plenamente em 2025, os investimentos das big techs apontam nessa direção. O que isso significa para Educação? Potencialmente, a substituição progressiva da mediação docente por sistemas automatizados, não porque são superiores pedagogicamente, mas porque representam uma economia de escala.
*Quer experimentar o Comet? O navegador está disponível gratuitamente (lembrando que, quando o produto é gratuito, você é o produto; seus dados de navegação alimentam o sistema). Baixe com consciência crítica.





