Inteligência Artificial em Ação #2
Um giro pela atualidade das repercussões da IA no campo educacional
Bem-vindos a mais uma edição da IAEdPraxis, sua fonte de informação para explorar os caminhos da Inteligência Artificial aplicada à Educação Nesse segundo número de "IA em Ação" apresentamos fontes de informação, resultados de pesquisa e iniciativas da IA na Educação de forma geral.
Biblioteca digital reúne 203 obras sobre IA e Educação
A Red Académica de Educación e Inteligencia Artificial (RAEIA) disponibilizou uma biblioteca digital com mais de duzentos livros, apresentações e manuais de acesso aberto sobre a temática IA e Educação.
A coleção, embora limitada a obras em espanhol e inglês, reflete o crescimento da produção acadêmica na área. A premissa é promover um debate crítico sobre integração responsável desta tecnologia, priorizando perspectivas pedagógicas sobre as tecnológicas.
Embora a quantidade expressiva de títulos, muitos ainda de caráter exploratório, possa gerar sobrecarga informacional, vale a pena uma visita.
Avatares em evolução
A plataforma HeyGen anunciou seu novo modelo Avatar IV. Com uma única foto ou imagem, um script e uma gravação de voz, o sistema cria uma representação digital realista.
O diferencial da inovação anunciada é a sincronização do personagem com o áudio, de forma que expressões faciais, movimento da cabeça e micro-gestos estão em compasso com o ritmo, tom e intenção de cada fala.
Aqui um teste realizado. Caso tivesse gravado a fala, ou mesmo enviado uma amostra para funcionar como base, o resultado seria ainda mais "eu".
No mais, os preços da plataforma baixaram substancialmente, em relação à época de seu lançamento e tornavam-a inviável. Agora, com a capacidade de geração de vídeos ilimitados de até 30 minutos de duração, a assinatura mensal custa 29 dólares mensais, frente ao 1,6 dólar por minuto de vídeo cobrado em março de 2024.
Livros "inteligentes" são livros didáticos?
Notícia de impacto para o mundo da IA, a Assembleia Nacional da Coreia do Sul aprovou uma lei removendo o status legal dos livros didáticos "inteligentes", enterrando um projeto educacional de US$ 385 milhões da administração anterior.
A situação exemplifica como empresas de tecnologia, LG e Samsumg incluídas, tentam "abocanhar" mercados educacionais através da apropriação de recursos públicos, mesmo quando o valor pedagógico das soluções não foi adequadamente validado. Apesar do enorme investimento, apenas um teste piloto limitado foi realizado no início de 2025. Além disso, a taxa de adoção voluntária nas escolas foi somente de 30%, evidenciando a pressa em implementar uma tecnologia sem fundamentos educacionais sólidos.
O caso sul-coreano também ilustra uma dinâmica frequentemente ignorada nos debates sobre IA: muitas controvérsias aparentemente tecnológicas são, de fato, reflexos de disputas políticas e humanas mais profundas. A decisão da Assembleia Nacional não foi motivada primariamente por considerações pedagógicas, mas representa uma oposição sistemática ao presidente Yoon Suk Yeol, que sofreu impeachment pouco antes desta votação. Ou seja, o destino dos livros com IA foi selado não por evidências educacionais, mas pelas turbulências do cenário político sul-coreano.
Interações sociais em xeque
Com o título “All roads lead to ChatGPT”: how Generative AI is eroding social interactions and student learning communities] ("Todos caminhos levam ao ChatGPT: como a IA Generativa está erodindo as interações sociais e as comunidades de aprendizagem de estudantes", em tradução livre), a pesquisa de Hou e colaboradores identificou uma transformação silenciosa, mas profunda, nos ambientes educacionais.
Embora as preocupações com a IA geralmente se relacionem com a fraude acadêmica ou com impactos sobre o pensamento críticos e sobre capacidades cognitivas, as dinâmicas de sala de aula e de interação social também podem estar sendo afetadas. Com base em 17 entrevistas realizadas em sete universidades, os pesquisadores descobriram que os pedidos de ajuda e de informações deixaram de ser dirigidos a colegas, voltando-se aos chatbots de IA.
Além de sentimentos de isolamento e de falta de motivação, esta redução da interação entre pares dificulta a circulação do chamado "currículo oculto". Em outras palavras, daqueles conhecimentos que não estão formalizados, mas que pautam a vida o êxito acadêmico, sendo socialmente compartilhados (por exemplo, "não se matricule na disciplina daquele professor!").
Os autores sugerem estratégias de mediação, a partir de protocolos que criem oportunidades de interação. Como por exemplo, incumbindo aos estudantes mais experientes o atendimento dos novatos.
Embora o escopo da pesquisa tenha sido limitado, estes resultados chamam a atenção. É preciso ter em mente que os benefícios sociais da aprendizagem colaborativa, tão necessários para a construção de pertencimento e para o desempenho a médio e longo prazo, precisam ser mantidos de alguma forma, diante do avanço da tecnologia.
Do consumo à criação
Quando tratamos da aprendizagem de idiomas com ajuda de IA não incluímos uma possibilidade a mais: criar suas próprias ferramentas. A proposta, que pode soar ambiciosa, foi trazida à tona por Wyndo, autor de uma newsletter sobre usos práticos da IA.
Sua premissa é a de personalização total: os apps criados através das capacidades de programação do Claude, ChatGPT e Gemini, atenderiam às preferências, necessidades e hábitos de aprendizagem de cada pessoa.
Um exemplo, se você uma pessoa aprende melhor através da interação, um "Simulador de Diálogos" seria um aplicativo indicado. Por outro lado, se ela valoriza a imersão, um "Gerador de Histórias" teria seu valor.
Como Wyndo destaca, o método funciona para qualquer objetivo de aprendizagem, desde a física quântica, culinária, aberturas de xadrez ou preparação para concursos. Os princípios permanecem os mesmos:
Definir um objetivo de aprendizagem claro e específico
Dividir o conteúdo num currículo estruturado
A partir do currículo construir apps de aprendizagem
Testar, refinar e expandir o sistema com base no uso
No texto no qual relata como foi capaz de aprender espanhol "três vezes mais rápido" com este sistema, o autor inclui um prompt para colocar o projeto em prática.
Particularmente, percebo valor na ideia. Além de envolver um domínio cognitivo elevado, o da "criação" (em termos da taxonomia de Bloom), a proposta também lida com a metacognição. Isto é, criar um app educacional exige que o aprendiz reflita sobre o "por quê" e "como" aprende, algo que será um diferencial num mundo cada vez mais mediado pela IA.
Mas do que a IA não é capaz?
Retomando nossa discussão sobre a substituição de professores por IA, uma reportagem da revista Education Week buscou mapear os "limites intransponíveis" da Inteligência Artificial na Educação.
Baseada em entrevistas com educadores, pesquisadores de IA e CEOs de empresas de tecnologia, a pesquisa realizada pela revista identificou seis áreas fundamentais onde professores permaneceriam insubstituíveis.
Em primeiro lugar estaria ensinar o pensamento crítico*, com a orientação dos estudantes através de questionamentos reflexivos e discussões estruturadas. Neste ponto, professores teriam um papel vital como mediadores, validando informações e colocando-as em perspectiva.
Em relação a construir relacionamentos, a conexão pessoal que professores estabelecem com estudantes seria irreplicável. Assim, a IA não compreende a dinâmica de aprendizagem socioemocional, nem o contexto familiar e cultural dos estudantes.
De forma relacionada, motivar estudantes envolve um "toque humano" e a empatia que professores têm por seus alunos. Desenvolver o senso de identidade, como aprendiz e como futuro cidadão, também é um papel desempenhado pelos docentes que não possui paralelo na tecnologia.
Já criar ambientes positivos de aprendizagem sintetiza as capacidades anteriores, na maneira como um professor é capaz de inspirar e motivar seus estudantes, auxiliando-os a compreenderem as complexidades do mundo atual e garantindo sua segurança física e emocional.
O feedback de alta qualidade se destaca diante da incapacidade da IA avaliar elementos subjetivos, assim como criatividade e originalidade. Projetos interdisciplinares, resolução de problemas complexos e interaçõe sociais e emocionais também ficariam aquém das capacidades da tecnologia.
Finalmente, atender às necessidades básicas dos estudantes envolve elementos da experiência humana que exigem uma consciência aguçada do bem-estar dos alunos. Sinais de fome, angústia ou de um estudante em dificuldade exigem uma conexão pessoal.
Embora esta áreas já fossem apontadas nas reflexões sobre o impacto educacional antes da emergência da IA Generativa, também é importante estar atento aos discursos que buscam conferir estas mesmas competências à IA, a exemplo dos modelos de raciocínio e dos "companheiros virtuais".
Desilusão tecnológica
Também da revista Edweek nos chega o relato desalentador de uma professora diante do uso da IA por seus alunos. Contrapondo o otimismo que frequentemente domina muitos discursos, Lauren Boulanger, professora de inglês em Massachusetts, oferece uma perspectiva raramente ouvida, a do "chão de sala de aula".
Ao registrar as ocorrências de redações e trabalhos gerados por IA, Boulanger aponta para a inutilidade de soluções como exigir dos alunos o histórico de modificações do documento. Como sempre, os estudantes de adaptaram, criando um "histórico de rascunho" artificial que mostra textos escritos em 15-30 minutos, sem revisões significativas.
Um efeito adicional da vigilância, percebido pela professora, foi o impacto nas relações, com a criação de sentimentos de desconfiança e de barreiras comunicacionais.
Por outro lado, mesmo as orientações de tornar o trabalho mais pessoal, evitando a generalização e falta de profundidade do texto automático, acabam por falhar. Ela conta sobre estudantes que usaram IA para responder perguntas envolvendo a metacognição ("Descreva um momento em que você percebeu que estava aprendendo") ou de posicionamento pessoal ("Qual personagem de Gatsby é mais insuportável e por quê?").
Diante do impasse, a solução da professora seria voltar ao "papel e lápis", com a maior parte da escrita feita em sala de aula. Sua abordagem representa uma resistência informada: não tecnofóbica, mas pedagogicamente fundamentada, escolhendo usar a IA pontualmente a partir de uma escolha própria e não pelo hype ou pressões institucionais.
O Gemini sabe tudo a seu respeito
Uma atualização importante chegou ao chatbot do Google: o novo recurso "Personal Context" (Contexto Pessoal) permite que o chatbot lembre de seu histórico de conversas, preferências e contextos pessoais.
O que antes era exclusividade do ChatGPT agora se expande. O [prompt que publicamos recentemente demonstra como é possível fazer uma análise aprofundada, a partir do histórico completo de conversas, com uma reposta personalizada baseada nos padrões de comportamento do usuário.
Por um lado, tal funcionalidade é anunciada como capaz de proporcionar experiências mais fluidas e contextualizadas. Por outro, levanta questões importantes sobre a opacidade das plataformas de IA.
Mesmo quando as plataformas declaram que os chats não são registrados ou utilizados para treinamento, este repositório de informações pessoais pode ser acessado e analisado por terceiros. O recente vazamento de conversas do ChatGPT nos resultados do Google é um exemplo de como a proteção de dados pessoais e da privacidade pessoal, de forma geral, demanda uma regulamentação mais rígida.
Um chatbot educacional para chamar de seu
O Departamento de Educação de New South Wales, na Austrália, lançou o NSWEduChat, um chatbot de IA generativa desenvolvido internamente e hospedado em infraestrutura própria, em Sydney.
A iniciativa representa um movimento significativo em direção à soberania digital educacional. Ao invés de depender de ferramentas comerciais externas, o Departamento criou uma solução que garante controle total sobre dados, privacidade e alinhamento com políticas locais.
Além de adotar "melhores práticas" de compartilhamento de dados e proteção da privacidade, o o sistema é contextualizado para o contexto regional, alinhado a suas diretrizes curriculares.
A ferramenta visa apoiar o desenvolvimento profissional, automatizar tarefas administrativas docentes e permitir que educadores desenvolvam competências em IA "em ambiente seguro". Significativamente, o Departamento não endossa nem recomenda uso de ferramentas gratuitas de IA Generativa, embora não as proíba.
Este modelo pode inspirar outras redes educacionais a considerarem alternativas à dependência de grandes plataformas comerciais, especialmente em contextos onde privacidade de dados e alinhamento cultural são prioritários.
Em última instância, este tipo de iniciativa pode ser entendido como um esforço de soberania tecnológica, num uso que transcende problemas éticos como o viés cognitivo e a falta de privacidade das tecnologias das big techs.
Infelizmente para nós, o acesso é restrito aos professores e gestores da rede.
E-book sobre IA e audiodescrição
O professor Ernani Ribeiro (CAV/UFPE) lançou o e-book "Tecendo o futuro da Educação com Inteligência Artificial aplicada à audiodescrição", documentando a experiência pioneira que relatamos na edição anterior.
A obra narra a trajetória do projeto de capacitação de professores do ensino médio em práticas de audiodescrição com recursos de IA para estudantes com deficiência visual em Pernambuco. De forma indireta, traz ensinamentos e orientações úteis sobre audiodescrição, uma prática necessária mas muitas vezes ignorada por muitos professores.
O livro está disponível gratuitamente .







