Inteligência Artificial em Ação #1
Notícias, reflexões e resultados de pesquisa sobre IA no campo educacional

Retomando uma seção do projeto inicial de nossa newsletter, IAEdPraxis: Caminhos Inteligentes na Educação, apresentamos uma compilação de notícias recentes sobre novos desenvolvimentos, pesquisas, iniciativas e implementações de IA na Educação.
IA em Ação
Por Marcelo Sabbatini
Os desafios de escrever com IA
Um dos grandes "nós" que temos hoje na Educação é como desenvolver a competência da escrita, se esta pode ser automatizada pela IA. Integrar a tecnologia no processo traz o dilema de equilibrar o potencial de elevar a qualidade da escrita diante do risco de atrapalhar o desenvolvimento do ato de escrever e de promover a dependência tecnológica.
Com base nestas premissas, a pesquisadora Anna Mills apresenta o projeto PAIRR (Peer and AI Review + Reflection, Revisão por Pares e por IA + Reflexão, em inglês), da Universidade da Califórnia. A ideia é criar um espaço reflexivo no qual os estudantes mantêm autonomia criativa, ao mesmo tempo que desenvolvem senso crítico a partir de diferentes avaliações de suas produções escritas. A combinação de perspectivas humanas e artificiais poderia enriquecer o processo de revisão e promover uma capacidade de discernimento em relação a própria produção textual.

O projeto conta ainda com um programa de formação docente, com treinamentos de imersão na metodologia e a formação de comunidades de prática, além de contar com um software sem fins de lucro, o MyEssayFeedback.ai.
IA para "filar"?
Michael Kingston, designer instrucional, compartilhou sua apresentação num evento sobre IA da Kennesaw State University, abordando o tema da fraude acadêmica. Em resumo, suas principais suas observações:
A maioria dos estudantes do Ensino Superior está usando IA generativa, predominantemente como ferramenta de produtividade ou aprendizagem.
Não existe software confiável de detecção de IA; o detector de IA mais confiável continua conhecimento do educador sobre os alunos e sua escrita.
O uso inadequado de ferramentas de IA é, de fato, muito mais comum que a fraude e se origina de lacunas no letramento em IA, devendo ser abordado via orientação e desenvolvimento de habilidades.
Tal letramento em IA envolve equilibrar as oportunidades e os riscos de diferentes ferramentas. Construir habilidades e domínio fundamentais permanece tão valioso quanto sempre foi.
Ainda sobre "colar"
Matt Miller, adepto das mídias digitais na educação e autor do seminal "AI For Teachers", nos traz uma série de considerações sobre fraude acadêmica na era da IA:
Queremos saber:
Como posso ter certeza se os alunos usaram IA? (Resposta: Não podemos.)
Como podemos impedi-los de usar IA fora da escola? (Resposta: Não podemos.)
Como podemos criar tarefas onde os alunos não podem usar IA? (Resposta: Não podemos.)
É uma situação complicada e obscura. Sabemos que os alunos estão usando. Sabemos que eles estão tentando evitar trabalho de classe que não desejam fazer.
Mas também sabemos que a IA fará parte do futuro deles.
MAS... também queremos que eles pensem, que desenvolvam habilidades... que cresçam como seres humanos.
Como diabos navegamos por todas estas questões?
São vinte considerações que partem dos problemas relacionados à detecção do uso de IA e chegam a recomendações para o uso responsável e para a inclusão da tecnologia com auxílio à aprendizagem, de forma significativa e bem orientada.

Falsos positivos na detecção de IA
Adam Pacton, professor associado do College of Integrative Sciences and Arts da Arizona State University, questiona: ele possui um conjunto de habilidades acadêmicas e um conhecimento razoável sobre IA, de forma que não se sente intimidado ao confrontar figuras de autoridade e uma eventual acusação de "plágio de IA". Mas e os outro pais?
Como ele argumenta, os falsos positivos têm consequências graves, causando estresse nos estudantes e abalando relações de confiança entre pais, filhos e professores.
Então, como ajudar os responsáveis e estudantes a se colocarem diante de situações envolvendo integridade acadêmica ocasionadas pela IA?
Paulo Freire e Inteligência Artificial
A consultora e PhD Christyna Serrano publicou em sua página pessoal o texto "Empowering Education in the Age of AI Moving Beyond the Banking Model with Freire's Problem-Posing Approach". Em sua argumentação, a filosofia educacional de Paulo Freire emerge como um "quadro de referência poderoso" para enfrentarmos este momento no qual a IA promete remodelar nossos processos cognitivos e interações cotidianas, a era da "cognificação".
O texto inclui um recurso interativo que mostra como a tecnologia pode ser utilizada numa perspectiva de "educação bancária" ou de "educação problematizadora". A autora faz um chamamento para o uso da consciência crítica, abordando também a metacognição como um dos elementos-chave para transformar a IA numa ferramenta de leitura e investigação da realidade, em contraposição ao consumo de respostas prontas.
IA para combater desinformação...
O projeto SIFT Toolbox, criado por Mike Cauldfield, reúne a metodologia SIFT com os poderes da IA para desenvolver pensamento crítico a respeito de potencial desinformação. Baseado num prompt extenso, , a ideia é transformar qualquer modelo de linguagem num assistente de pesquisa rigoroso, reduzindo alucinações e promovendo a análise sistemática de perspectivas conflitantes.
A metodologia SIFT, elaborada pelo próprio Caulfield, estrutura-se em quatro etapas:
Stop (pausar para avaliar reações emocionais e questionar a fonte)
Investigate the source (verificar credenciais e reputação do autor),
Find better coverage (buscar múltiplas fontes confiáveis e comparar perspectivas)
Trace claims (rastrear citações e dados até suas origens).
Justamente, a ferramenta incorpora esses princípios em instruções que orientam os chatbots a buscar múltiplas perspectivas, citar fontes, identificar limitações, distinguir fatos de interpretações e reconhecer informações insuficientes.
O prompt está disponível para uso e, embora esteja escrito em inglês, pode ser solicitado para que opere em Língua Portuguesa.
…e IA para criar desinformação
O perfil Fake History Hunter desabafa:
Sim, estamos condenados.
Completamente gerado por IA, tudo o que foi necessário foi um prompt.
Sons, elementos visuais, tudo falso.
E quando eu digo nós, eu quero dizer pessoas que fazem filmes, TV, arte, etc.
Historiadores ainda serão necessários... por enquanto.
É ao mesmo tempo impressionante, emocionante e aterrorizante.
Imagine os filmes de História ou documentários com aparência de grande orçamento que eu poderia fazer com esta tecnologia.
Imagine os grandes filmes de História ou documentários com aparência de grande orçamento que algum idiota ignorante e tendencioso que não consegue fazer pesquisa poderia fazer com esta tecnologia.
Imagine as histórias de notícias falsas que pessoas com uma agenda poderiam criar com esta tecnologia.
A tecnologia é o modelo VE03, lançando recentemente pelo Google.
IA para quem?
Falando do modelo VEO de criação de vídeos, el foi lançado durante o evento I/O do Google, que trouxe além desta ferramenta de criação de vídeo, melhorias no Deep Research, lançamento do NotebookLM como aplicativo de celular.
Já a integração destas duas ferramentas num único produto também foi divlgada, com um custo de assinatura de 250 dólares mensais (aproximadamente 1400 reais). O desafio ético do acesso às tecnologias de IA, e a consequente geração de "abismos" de inclusão tecnológica, vai se fazendo realidade.
Formação docente
A Universidade de Sydney desenvolveu um recurso para educadores interessados em integrar a IA Generativa em suas práticas pedagógicas, complementando uma plataforma similar voltada para estudantes.
A página aborda aplicações da IA no ensino, com estratégias práticas dos principais tipos de uso, além de orientações sobre como lidar com o tema junto aos alunos. Nos quesitos planejamento didático e preparação de material didático destaca-se potencial da IA para criar analogias, exemplos e tópicos de debate que ajudem os educadores a diversificar suas abordagens pedagógicas e estimular o pensamento crítico em sala de aula.
O guia trata ainda de engajamento estudantil, avaliação e feedback. Especificamente, ressalta a necessidade de mudanças nas concepções de avaliação, especialmente quando não há supervisão presencial (por exemplo, EaD).
Em inglês, logicamente.
Sua pesquisa pode virar um jogo?
O professor Ethan Mollick segue com algumas experimentações criativas com IA. Num post recente no Linkedin ele relatou como enviou um trabalho científico de sua autoria para o Gemini 2.5, acompanhado do prompt "construa um jogo baseado neste artigo, torne-o interessante e temático, mas ainda transmitindo as principais descobertas".
Que tal experimentar e contar o resultado aqui, em nossa newsletter?
Recursos visuais num clique
Quando abri minha caixa de ferramentas de IA, faltou colocar o Napkin.ai. Trata-se de uma ferramenta interessante para criar recursos visuais que podem ser usados em apresentações: infográficos, diagramas, fluxogramas e mapas conceituais, que ajudam a sintetizar informações e facilitam a compreensão.
Aqui, um meta-exemplo a partir do parágrafo anterior.
Para professores, pode ser utilizado na elaboração de materiais didáticos, com ilustrações de facilitam a visualização e compreensão de conceitos complexos ou de mapas conceituais que sintetizem um determinado tópico.
A platforma permite a exportação em formatos de imagem que podem ser utilizados em outras aplicações. Contudo, alguns formatos, como imagens vetoriais, a remoção da marca d'água e a capacidade de edição de cada elemento da imagem são exclusividade da assinatura premium.
IA facilita a aprendizagem?
Recentemente também acompanhamos o aguardado resultado de um estudo realizado pelo Banco Mundial sobre o uso de IA como tutor, na Nigéria e suas repercussões.
Apesar de críticas como o fato de não ser efetivamente uma tutoria automatizada, mas do uso do ChatGPT e de muitas considerações metodológicas e interpretativas, o artigo se tornou objeto obrigatório de debate.
Especialmente, a alegação de que o efeito da tecnologia equivale a 0,9 ano de escolarização a mais, em relação ao grupo de controle, pode ser contestada. Mas definitivamente impactou a comunidade acadêmica
Mais pesquisas
O coletivo de pesquisadores da AI-for-Education.org trouxe resultados de pesquisa relevantes para o cenário educacional, em seu último balanço (roundup).
Assim, ao mesmo tempo que a IA poderia diminuir o tempo de avaliação em 33%, também possui a tendência a ser mais severa que avaliadores humanos.
Ambos estudos apontam que o uso da tecnologia para atribuir notas e realizar correções deve ocorrer num sentido de apoio e de fornecimento de informações adicionais, e não o de substituição.
Perplexity integrada ao Whatsapp
Pode ter passado desapercebido, entre tantas notícias que agitam o mundo da IA, além de estar escondido num menu contextual.
Mas o popular aplicativo de mensagens agora permite buscas com o Perplexity, a partir de trechos ou palavras destacadas nas conversas. Com acesso em tempo real a internet e capacidades de pesquisa profunda, a capacidade é bem superior à IA que foi recentemente incorporada ao aplicativo.
Além disso, é possível conversar diretamente com esta IA. Para isso é preciso adicioná-la à agenda de contatos: +1 (833) 436-3285. Ou clicar neste link.
Relatórios editáveis
Ainda falando do Perplexity...ao contrário do assistente de pesquisa NotebookLM, sua funcionalidade de busca profunda é acompanhada da possibilidade de exportar os relatórios finais em PDF ou em formato editável DOCX.
Essa recurso facilita muito a vida do usuário final, que além de contar com a estrutura de formatação também permite o refinamento através de edições posteriores. Com isso, evita o trabalhoso "copia e cola" que o uso de chatbots geralmente envolve.
Por outro lado, esta automação e a geração de um "produto final" pode ter lá suas consequências. Sem reprocessamento, o usuário pode facilmente pular as etapas de ler, analisar, corrigir e reformular o conteúdo gerado pela IA.
Num panorama amplo, esta falta de apropriação e de uso de um filtro crítico pessoal, revestida de uma aparência superficial de qualidade", pode incentivar a dependência tecnológica e levar ao descarregamento cognitivo.
Instruções escondidas
Informação: a estenografia é arte de e ciência de esconder informações dentro de outros dados ou mídias, de forma que a existência da mensagem secreta não seja detectada por observadores casuais
Informação 2: agora é possível usar esteneografia com os geradores de imagem de IA.
Tomei conhecimento desta possibilidade através de um teste realizado por Mark Basset, da Charles Sturt University, na Austrália.
Primeiro ele instruiu o ChatGPT a criar um desenho a lápis, contendo uma determinada instrução. Se carregado num chatbot, este realizaria um desenho da ponte do porto de Sidney. Dito e feito!
Como nota o professor, qualquer imagem pode conter instruções executáveis (quem assistiu um dos episódios da temporada 7 de Black Mirror sabe). A novidade é o fato das IAs Generativas fazerem isso de forma tão fácil.
Em prol da acessibilidade
Em destaque, o projeto de extensão e inovação “Tecendo o Futuro da Educação com Inteligência Artificial aplicada à Audiodescrição”, coordenado pelo professor Ernani Ribeiro, do curso de Ciências Biológicas do Centro Acadêmico de Vitória (CAV)/UFPE.
Seu objetivo foi capacitar 572 docentes da rede estadual de ensino de Pernambuco, para o uso de Inteligência Artificial aplicada à audiodescrição de conteúdos pedagógicos. A formação envolveu aulas online, atividades práticas e produção de soluções tecnológicas acessíveis, integrando plataformas, permitindo a descrição automática de imagens e a leitura de textos personalizados.
A premissa e justificativa é a promoção da inclusão de estudantes com deficiência visual e a democratização do acesso ao conhecimento, um ponto que já abordamos por aqui.
IA "empurrada"
De repente, sem qualquer aviso, ler e consultar um PDF se tornou um desafio cansativo. Paralisando o computador pelo uso de memória. Incapacitando o usuário de realizar buscas textuais, atrapalhado pelas sugestões consulta "inteligente".
Entrando na corrida entre as empresas de base tecnológica, a Adobe colocou Inteligência Artificial num de seus principais produtos, o Acrobat Reader, ocasionando os problemas relatados.
Apenas mais um episódio de "forçação de barra" para tentar viabilizar o uso IA, mesmo que os usuários não tenham pedido por isso. Particularmente, se for para dialogar com um texto, prefiro fazê-lo através de um modelo bem mais avançado e eficaz.
Porém, tem solução. Basta ir ao ao menu principal e selecionar a opção "Desative o novo Acrobat Reader ", para voltar a uma versão mais simples (e útil) do programa.
Para descontrair (ou não)
Do mundo dos memes e charges, que nos permitem utilizar o humor para analisar a realidade.








